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O escalador olha mais uma vez para cima, admirando e odiando o topo ao mesmo tempo. Odiando por estar tão longe; admirando por ser tão belo. O cume o chama. Sussurra seu nome baixinho como uma amante apaixonada, e ele ouve e quer responder. Quer chegar até ela, tocá-la, tê-la em seus braços. Quer chegar ao topo. Ver o mundo de cima, ao menos uma vez, nem que seja por poucos segundos. Nem que seja pra descer logo após.
Ele não pensa na descida, nem na volta, nem nos méritos. Só pensa em chegar onde quer, e é isso que o faz avançar mais alguns centímetros com seus braços e pernas, mesmo estando esses tão cansados. Ele está cansado. Exausto. Parte dele o diz que ele nem ao menos deveria ter começado, que o fim não valia o esforço. Mas ele tenta não ouvir, e continua a subir. Mais um pouco. Mais um pouco. O céu lhe parece cada vez mais perto, o que mostra que ele está avançando. Mais um pouco. Sente suas mãos, mesmo protegidas por luvas, em carne viva. Seus pés quase erram ao achar o vão entre as pedras, mas acabam achando seu lugar. Lhe parece que todos os músculos de seu corpo estão para o abandonar, mas ele continua a subir. Mais um pouco. Sente vontade de chorar, mas segura. Já está chegando. Cada vez mais próximo. Mais um pouco. Ele tenta ignorar todos os problemas e continua a subir. No próximo avanço, sua mão direita perde o lugar onde se apoiar e por pouco ele não… Mas consegue se equilibrar, e encontrar mais um lugar onde apoiar sua mão. Decide parar, por um segundo apenas. Deixa as lágrimas escorrerem por sua face. Martiriza-se por ser fraco, por sentir dor, por ser humano. Logo depois, recupera-se. E continua a subir. Mais um pouco. Mais um pouco. Olha novamente para cima. Agora o céu está tão próximo… Continua. Mais um pouco. Mais um pouco.
Mas, além de seu corpo, algo mais também está cansando. Ele sente uma pressão leve na parte da barriga, e entende aquilo como sua corda resolvendo ceder. É. Ele pode ver alguns fios soltos bem perto de seu corpo, e começa a rezar. Pra todos os deuses, pra todos os santos, pras forças da natureza e do universo. Torce para estar sonhando, para a corda não estar daquele jeito, começa a tentar subir mais rápido, chegar ao topo logo, antes que tudo acabe. Mais um empurrão. Mais alguns fios soltos, ele pode ver, mas decide ignorar e continua a subir. Mais um pouco. Mais rápido. Mais alguns fios. Mais muitos fios. Mais todos os fios. Ele é empurrado para o infinito, e se vê cada vez mais longe do céu e em cada vez mais velocidade. Tenta se lembrar o que aconteceu, o que está fazendo ali, quem é. Tudo isso na fração de segundo antes de seu corpo atingir o chão, até que atinge. E ele morre, simplesmente. Sem poesia, sem pensamento, sem montanha. Apenas morre. Longe demais do céu.
23:40